
Certa ocasião fui chamado para trabalhar em uma escola particular, para ministrar aulas de história, até aí tudo bem, estava fora da rede pública naquele momento e tinha horas disponíveis para o exercício da docência, além do que, estava precisando ganhar uns trocados a mais, afinal, a família tinha aumentado.
Durante a entrevista é que me dei conta que a escola era confessional, mais propriamente evangélica, em que todas as crianças eram evangélicas, os pais dessas crianças evangélicas também eram evangélicos , além de todo corpo docente, faxineiros, porteiros, coordenadores e obviamente, a Direção. E lá estava eu, o último dos ateus, pronto para ministrar aulas de história para as séries do ensino fundamental em uma escola que antes de iniciar as aulas pela manhã, todos se reuniam no templo, que ficava abaixo das salas de aula, e adivinhem, oravam.
Poucas vezes me senti tão peixe fora d´água como naquela época.
Lembro-me de ter perguntado para a diretora como deveria abordar determinados temas, digamos, mais delicados da história, como por exemplo sobre a pré-história, afinal eu sabia que de acordo com o antigo testamento, o mundo teria cerca de apenas 6 mil anos, e que essas questões sobre a pré-história nunca foram bem digeridas pelos mais fanáticos fundamentalistas evangélicos. Entretanto, a resposta da diretora me pegou desprevinido, pois deveria explicar a origem do homem por meio da chamada concepção científica, porém sem jamais por em questão o pensamento religioso. Não questionar a visão religiosa, pensei, minhas horas aqui estão contadas.
Bem, entrei na sala, uma quinta-série, as crianças tinham aquele olhar de lobo predator pronto para atacar o pobre novilho, um misto de curiosidade, com ares de sadismo, percorriam naqueles supostamente inocentes. Eu sabia, que ali existiam dentro daqueles corpinhos, seres capazes de destruir minha fé (obviamente me refiro a fé docente), pois a diferença entre crianças cristãs, judias, islãmicas, ou qualquer que seja sua base religiosa, com certeza não está em seu comportamento dentro de uma sala de aula. Resolvi então utilizar, meus dois maiores expoentes pedagogos para conseguir atenção e ao mesmo tempo por ordem naquele pesadelo de Dante, busquei nas teorias do velho e sempre bom Piaget e resgatei do exílio o bem amado Pinochet, sim o velho general chileno, para conseguir acalmar aquelas criaturas de Deus (?).
Dessa forma, consegui organizar a sala e mandei ver. Como não podia ser diferente o primeiro assunto da apostila, era justamente a bendita pré-história, sim senhores, estava eu preso a esse conteúdo herege que é o período paleolítico.
Resolvi então usar a velha máxima de botequim, se está no inferno abrace o diabo. E lá fui eu, discorrendo sobre o começo da humanidade, do momento em que homem se diferenciou dos macacos, de sua luta pela sobrevivência, da dominação do fogo, da invenção da agricultura, e todas essas outras coisas, sem muito importância que foram criadas naquela época e que devemos saber nos dias de hoje.
As crianças viajaram comigo para aquele mundo desconhecido, vivenciaram essas descobertas, sentiram o gosto do conhecimento, é nessa hora que você percebe o porquê de querer abraçar r o sacerdócio da docência. Porém, assim como no Éden existia uma serpente, fui posto a prova por uma terrível criatura.
Uma menininha de olhar faceiro, de tranças douradas e sardas ao redor de um minusculo nariz, o qual apoiava um óculos arredondado, resolve acabar com minhas pretenções de ganhar um Oscar de melhor professor de história de escolas evangélicas, quando me ataca com a sua pergunta mortal:
- Professor, não entendo uma coisa, porque não existem dinossauros na Biblia?
Essa pergunta me pegou disprevinido, como se eu estivesse fazendo algo errado, sabe aquela sensação de ter sido você quem apanhou a fruta proibida e deu uma dentada no exato momento em que o Criador resolveu ver o que você estava fazendo?
Tentei desvencilhar da resposta, utilizando meus conhecimentos socráticos, jogando os questionamentos para que viessem deles a solução desse enigma. Porém, Sócrates essa hora me faltou, deve ter tomado cicuta dentro de mim.
Maldito filósofo, porque me abandonastes?
E lá estava eu acuado, defronte aqueles pequenos seres malignos, que naquele momento queriam ver o meu sangue. O silêncio que seguiu foi constrangedor, conseguia ouvir a respiração da menina que me olhava argumentativa, podia mesmo ouvir meus batimentos cardiacos acelerados, afinal a resposta errada mesmo que fosse certa, custaria meu emprego.
É nessa hora que a gente vê aquele filme da nossa vida passando, em milésimos de segundos, fui de minha infancia feliz, passando pela universidade e chegando até o dia da entrevista com a diretora daquela escola, que naquele momento me parecia mais ameaçadora que os inquisidores do Tribunal do Santo Ofício.
Respirei fundo, meditei, fiz aquele jogo de cena, que Luiz XVI deve ter feito segundos antes de colocar a cabeça na guilhotina e respondi:
Não existem, porque não cabem!
E saí em disparada, junto com o toque do sinal que a providência divina, tal qual as trombetas do arcanjo Gabriel, fez ecoar pela escola.
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